La Lamina Corredora

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Baby Blue

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Janeiro 2001

Dominação, por maclaine

Dominação, Revelação, Premonição… a criatividade das distribuidoras brasileiras para inventar títulos de filmes de terror/suspense tem sido surpreendente. Mas, como essa mais recente produção prova, os títulos idiotas parecem apenas refletir o que se encontra na tela grande.

A história básica desse filme traz uma professora reformada pela Igreja Católica chamada Maya Larkin (Wynona Rider), exorcista nas horas vagas, tentando provar para o renomado escritor de pseudo-psicologia Peter Kelson (Ben Chaplin) que ele é na verdade o anti-Cristo em pessoa. E mais: no dia de seu trigésimo-terceiro aniversário, sua personalidade será tragada pelo demônio, que iniciará o reinado das pessoas más no mundo.

O responsável pelo roteiro certamente nunca viu “Millennium”, pois se tivesse não teria tido coragem de escrever tamanha bobagem. Qualquer episódio daquela série irregular tem enredo e situações bem mais interessantes e inteligentes do que Dominação. Todos os clichês esperados de um thriller desse tipo estão presentes – o pentagrama, incestos, frases da Bíblia, banheiros amaldiçoados, etc.

Um exemplo da profundidade das situações criadas: para descobrir a identidade do anti-Cristo, Maya deve decifrar uma sequência de números que variam entre 1 e 26 (hum… o que será que cada número significa???). Após muito esforço mental e a ajuda das anotações do preso maluco que escreveu o código, ela descobre que o número 1 representa a letra E, o número 2 a letra F, e assim por diante. Caso típico de criptografia avançada.

Enquanto descobre o nome do malvado, Maya coincidentemente assiste uma entrevista do dito cujo na televisão. Maya tem um encontro com o cara, que parece ser um bom rapaz. Infelizmente, por ser o diabão, vai ter que morrer. O filme em nenhum instante parece interessado em discutir o sobrenatural. No universo da película, o diabo é um fato, assim como pessoas boas e más. O que se segue são apenas as “provas”. Nada de fato muito interessante ou assustador. Tudo muito previsível.

Março 2001

Corpo Fechado, por maclaine

Dos cineastas atuais, Manoj Nelliyatu Shyamalan é o que tem mais destreza em escrever seus filmes de trás para frente. Pra que perder tempo criando uma história que presta, se é mais fácil criar um final surpresa e enrolar o espectador durante horas?

Desde os primeiros minutos de O Sexto Sentido, eu sabia que aquilo seria um porre. Todo aquele espiritismo ridículo da história simplesmente me fez “desligar” do filme. Eu olhava as cenas passarem com o mínimo de interesse (pelo menos alguns zumbis eram legais). Então o diretor Manoj Night Shyamalan jogou o seu (agora famoso) final na cara dos espectadores, o que realmente me deixou surpreso. Por alguns segundos pensei até que o filme pudesse ser bom. Felizmente, tal pensamento realmente durou poucos segundos. Ficou bem claro que o cineasta simplesmente escreveu o “final surpresa”, e depois construiu um filme sem graça de trás para frente.

Um ano depois, o diretor se juntou novamente a Bruce Willis para falar da vida de um triste segurança de estádios chamado David Dunn, obrigado a conviver com um casamento em crise e a lembrança de ter sido o único sobrevivente de um horrível acidente de trem. Pra complicar as coisas, o fanático por quadrinhos Elijah Price (Samuel L. Jackson), que possui uma grave deficiência que fragiliza seus ossos (que lhe rende o apelido “Mr. Glass”), começa a perturbá-lo, por achar que David é um super-herói que precisa apenas de um encorajamento.

Elijah Price pergunta a David quando foi a última vez em que esteve doente. Após uma pesquisa em seu trabalho e com sua família, acreditem ou não, descobre que nunca teve sequer uma gripe (definitivamente não é o tipo de coisa que você só percebe quando tem quarenta anos…). Com a ajuda do filho, ainda descobre possuir uma força sobre-humana. Nasceu assim um super-herói! Todos seus problemas familiares foram resolvidos, sua tristeza sumiu, pois ele apenas era um herói e não sabia!

Os dois parágrafos acima resumem o enredo de Unbreakable até seus cinco minutos finais. Para completar a experiência do filme, olhe para a parede de sua casa por uma hora e meia. Como no filme anterior, Shyamalan teve o dom de tornar um assunto ridiculamente simples em algo pretensiosamente chato. Percebe-se a boa intenção do diretor de abordar um herói clássico dos quadrinhos como um homem de personalidade “séria” e “real.” Infelizmente ele falha de forma espetacular na tentativa.

O esquema “final surpresa” também está de volta, mas desta vez ele não tem nada de “surpresa.” Mas não vou falar nada, porque é um SUUUPER segredo…

comentários de Joe

Parece que o diretor Shyamalan conseguiu, de certa forma, repetir a fórmula de O Sexto Sentido em Corpo Fechado. Fórmula que já era uma bobagem, mas que atraiu milhões de pessoas ao cinema, que ficaram maravilhadas com o final surpresa. O roteiro era inconsistente: o menino (com uma exageradíssima atuação de Haley Joel Osment) disse que sentia frio perto das pessoas mortas. Sentia frio perto de Bruce Willis? NÃO. Os mortos eram entupidos de maquiagem branca e roxa, mas nenhuma em Willis. Ele morreu, não come, não dorme, não toma banho, não fala com a esposa, e não percebe. Hã? E ainda assim as pessoas achavam o filme uma maravilha. O mesmo acontece com Corpo Fechado.

Shyamalan começa o filme já mostrando sua tentativa desesperada de atribuir um toque pessoal à seu estilo de direção. A tomada inicial no trem foi interessante, mas ela é repetida pelos próximos 5 minutos. Várias outras cenas exibem essa tentativa, como a tomada inútil do suco de laranja, o espelho e a TV (na introdução do personagem de Samuel L. Jackson) e alguns ângulos inesperados (que não ajudam em nada). O Sexto Sentido ainda possuía algumas cenas de suspense que arrancavam alguns sustos da platéia. A única parte de Corpo Fechado que poderia causar tal reação remete algumas referências a O Iluminado, que certamente inspirou O Sexto Sentido.

Estranhamente, o filme é de certa forma bem racista. Elijah Price (Samuel L. Jackson) repete muitas vezes que ele é o oposto, o reflexo de David Dunn (Bruce Willis). E pra acentuar isso, Jackson (que não importando seu papel, fala do mesmo jeito que o Julius de Pulp Fiction) é negro e Willis, branco (d’oh). O racismo aparece novamente quando Dunn “detecta” um traficante de drogas no seu trabalho, que suponho seja interpretado pelo próprio Manoj (que é indiano, d’oh).

Devo ressaltar a memória do personagem de Bruce Willis, David Dunn. Ele pergunta a seu empregador quantos dias ele tirou de licença. Se fosse 1 ou 2, está certo não lembrar exatamente do número. Mas ele não tirou nenhum. Ele também não se lembra de ter nenhuma doença nem ter se machucado. E as afirmações de Elijah Price (Samuel L. Jackson) são ridículas. Algo como “se eu quebro como vidro, deve ter alguém no mundo que seja inquebrável”. Essa lógica infantil é típica de Shymalan, tentando trazer o mundo dos quadrinhos para as telas.

E duas coisas que não dá pra entender: 1. por quê diabos colocaram outro ator que não possui nenhuma semelhança com Willis para interpretar Dunn no passado? 2. que negócio é aquele que Elijah está fazendo na loja de revistas, quando o vendedor empurra sua cadeira???

Traffic, por Joe

“Steven Sodebergh é um diretorzinho de merda”. Não consegui tirar esse pensamento da cabeça durante as intermináveis horas de Traffic, seu novo filme, inacreditavelmente indicado para os Oscars melhor filme e melhor diretor. O FDP ainda tem uma segunda indicação pelo maravilhoooooso Erin Brockovich . Como que um diretor tão medíocre, tão enfadonho e tão mixuruca realiza uma façanha dessas? Mais uma prova das mutretas do Oscar. Fazer o que né?

Traffic fora considerado – pelos auto-denominados “críticos” – um dos melhores filmes do ano, e a expectativa criada em torno dele fora de proporções um pouco altas. Um novo thriller sobre o tráfico de drogas, com um elenco recheado de estrelas (Benicio Del Toro tendo recebido muitos elogios) e direção do então “brilhante” Soderbergh (está mais pra Soderbleargh). Me respondam, se aquilo é brilhante, o que é uma estrela?

Seria um serviço de inutilidade pública contar a história inexpressiva de Traffic nesta mera crítica, portanto, se quiser saber, vá ver o filme. Soderbleargh com seu estilo inventado de direção apenas obtém sucesso ao criar um clima realista, quase documental ao filme. O resto é pretensão. Exemplo: todas as cenas que se passam no México possuem um tom sépia encardido, que apenas insinua questões que não dizem respeito ao conteúdo do filme. Pode parecer preconceito, e provavelmente deve ser isso mesmo: fica evidenciado quando certos personagens atravessam a fronteira EUA – México. O colorido maravilhoso que ilustra os Estados Unidos da América dá lugar a um inebriante amarelo tosco. Outros locais possuem um tom azulado. A idéia de conferir fotografias diferentes a diversas situações e locais é boa, mas Soderbergh, além de usá-la de forma muito artificial, vai perdendo o controle à medida que as histórias se entrecruzam.

Estas são pouco envolventes, já que contam com personagens de plástico. A personagem de Catherine Zeta-Jones é tão verossímil quanto uma banana com caroço. O ¡festival de estrelitas! é sem dúvida algo para atrair público, sendo que certos “artistas”, como Salma Hayek, não passam nem três minutos em cena. O único que se salva é Benicio Del Toro, que demonstrara ser um grande ator ao viver o papel de “Dr. Gonzo” (quase irreconhecível) em um dos melhores filmes dos últimos anos, Fear and Loathing in Las Vegas.

O roteiro de Stephen Gaghan (cotado para escrever Indiana Jones IV, argh!) só possui o mérito de pegar acontecimentos aparentemente sem conexão alguma e reuni-los num esquema complexo de tráfico, corrupção, e claro, clichês. A filha do assim chamado no filme “czar” do combate às drogas (personagem de Michael Douglas) tinha que ser, claro, uma viciada que logo vira uma puta pra poder se drogar mais e mais… Uma grande bobagem.

Não existe nada de bom a ser dito de um filme que trata da questão das drogas de maneira que milhares de outros filmes já fizeram, porém de formas muito melhores e mais interessantes.

Outubro 2001

O Senhor dos Anéis, por Joe

Décadas antes de Peter Jackson, o infame diretor de filmes trash como Fome Animal e Náusea Total resolver filmar O Senhor dos Anéis (e criar uma expectativa comparável apenas àquela de Star Wars ), o animador Ralph Bakshi já tinha feito sua versão. Tal filme era quase impossível de se encontrar, e apenas por causa do lançamento do filme de Jackson é que a Warner resolveu trazê-lo para o DVD em outubro de 2001.

É uma enorme responsabilidade que Jackson tem agora em suas mãos, e que Bakshi teve em 78. Adaptar a clássica e inigualável trilogia de J. R. R. Tolkien para as telas não é tarefa para qualquer um. Antes dos cineastas terem à sua disposição o advento da computação gráfica (uma perigosa faca de dois gumes), a animação era o único modo viável para contar uma história como esta. Em 1978, obviamente o mundo era outro, e as técnicas de animação de primeira linha eram as usadas em jogos de computador 15 anos depois. Usando a rotoscopia para dar um certo realismo aos personagens, Bakshi também introduziu algumas técnicas próprias que ora funcionam, ora não.

O roteiro, de autoria de Chris Conkling e Peter S. Beagle, é bastante resumido e simplificado, porém bastante apropriado para um desenho animado. Algumas vezes nos deparamos com grandes saltos no enredo, mas nada que possa causar grandes confusões. Ainda assim, poderia ser melhor e quem não leu o livro pode ficar um pouco perdido. Mas, por outro lado, quem não leu o livro não deveria estar assistindo nenhuma adaptação de O Senhor dos Anéis, ponto final. A música excessivamente retumbante é de Leonard Rosenman (responsável pela adaptação da trilha sonora de Barry Lyndon) e nos leva a uma introdução curta que conta a história do Anel, como surgiu e como ele se perdeu. Bakshi usa silhuetas para retratar seus personagens de um modo bastante interessante e eficiente, embora explicite a compleição física de Sauron (sua semelhança com um cavaleiro que diz Ni! pode ou não ser mera coincidência) e o forjamento do Anel, além de super-simplificar o fato de Bilbo tê-lo encontrado.

O Condado é introduzido, e logo estamos na festa de aniversário de Bilbo. Sua atração pelo Anel é extremamente bem retratada no filme, tanto na primeira cena com Gandalf e mais à frente em Rivendell. Bakshi utiliza um artifício bastante ousado e criticado para saltar 17 anos na história, mas o resultado não é tão ruim quanto dizem. As pinturas de fundo, que foram brilhantemente criadas e desenhadas, prendem mais a atenção do que esse salto. De fato, elas são perfeitas para a criação de toda a beleza e atmosfera da Terra Média. Infelizmente as animações dos personagens não são tão convincentes, mas bastante aceitáveis. O problema maior está em suas concepções e algumas atuações exageradas, como a de Gandalf recitando os versos do Anel (“Um anel…”). Os hobbits estão todos muito bem, e até me surpreendi como o Frodo desta versão lembra o Elijah Wood (o ator que o representará no filme de Jackson), até sua voz é bem semelhante. Seria de propósito? Todos muito bem, exceto pelo Sam, que mais parece um filhote de ogro, pobre coitado. John Hurt felizmente faz a voz de Aragorn, mas fisicamente não parece nem um pouco com o caractere descrevido por Tolkien. O mesmo acontece com Boromir (que aqui virou um viking) e Gimli (um anão-gigante). E aparentemente, elfos são loirinhos de olhos azuis. Nem orelha pontuda o Legolas (Anthony Daniels, o C-3PO) teve direito. Tudo isso uma pena, mas nada que atrapalhe.

Uma das técnicas utilizadas por Bakshi é a fusão de personagens de carne e osso (trabalhados graficamente) nos cenários pintados e juntos às animações com rotoscopia. Enquanto isso funciona muito bem no caso dos Ringwraiths (pelo menos da cena do Weathertop pra frente: antes, parecem leprosos) – criando seres com uma aparência terrivelmente macabra e realista – na maioria das vezes destoa demais do restante. Nesse caso, foi uma opção melhor do que a de Jackson, que decidiu mostrá-los como meras variações de seu monstro-fantasma de The Frighteners (Os Espíritos). Os orcs também são retratados dessa maneira, e até dariam certo, se não parecessem saídos da capa do disco Magical Mystery Tour, dos Beatles. Para ser mais específico, são todos “I Am The Walrus”. Bem, quase todos. Os que não tem dentes de morsa tem máscara de macaco de borracha. Uma decepção, mas nada pior do que o Balrog, com cabeça de leão, asas de morcego gigante e chicote na mão. Gollum, porém, é bem decente: seu físico demonstra sua compleição hobbit, e sua voz não é estranha demais.

Uma das grandes dificuldades de adaptar livros tão imaginativos como os de Tolkien é decidir como mostrar certas coisas de um modo interessante e fiel às idéias originais do autor. Enquanto Bakshi pisa na bola várias vezes, acerta em muitas outras. A cena em que Aragorn e os hobbits são atacados pelos Ringwraiths em Weathertop é um bom exemplo. Frodo põe o anel, e nesse momento é como se ele entrasse na dimensão deles, se tornasse visível e vulnerável. Bakshi literalmente transforma em um outro mundo, na que provavelmente é a melhor cena. Porém ele decide mostrar o Saruman de “várias cores” com efeitos ópticos extremamente exagerados; o olho de Sauron no espelho de Galadriel não passa de um caleidoscópio; e Aragorn e Boromir podem ser vistos treinando com suas espadas em Lothlórien, algo inconcebível. E a chegada da Sociedade à Lórien, que é um dos momentos mais belos da narrativa, não existe no filme.

Depois que se dá início “As Duas Torres” (quem já leu sabe, é quando a Sociedade se divide), tudo começa ficar muito confuso. Treebeard (Barbárvore) aparece brevemente mas não faz muito; e as batalhas na planície e no Abismo de Helm deixam até quem já viu o filme perdido. E, no final desta, o narrador diz: “e assim acaba a primeira parte de O Senhor dos Anéis”. O que? Cadê o resto? Não tem, Bakshi não filmou. Se tivesse, teria sido ótimo, pois mesmo com todas essas (e outras) falhas, é uma adaptação bastante fiel, que não desvia dos conceitos originais, e que para um desenho animado, é excelente. Fãs do livro devem conferir. Mas não garanto nada.

Janeiro 2002

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, por Joe

Foi bem estranho: Peter Jackson, um diretor de filmes trash como Bad Taste (Náusea Total) e Fome Animal, recém-saído do fracasso Os Espíritos, iria dirigir a tão famosa saga de J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis. Não terei a presunção de tentar explicar nesta mera crítica o significado de SDA na literatura do século XX e em nossa cultura. Desde os anos 60, quando o livro subitamente foi popularizado, idéias de como adaptá-lo para as telas de cinema povoaram a cabeça de muitos cineastas. Os Beatles foram cotados para estrelarem (o próprio Jackson contribuiu recentemente para tornar essa história ainda mais bizarra, dizendo absurdamente que Stanley Kubrick seria o diretor) uma versão, mas Tolkien vendeu os direitos pouco antes de morrer para Saul Zaentz, e em 1978 finalmente levou O Senhor dos Anéis ao cinema. Era um desenho animado incompleto feito por Ralph Bakshi, e era até muito bom, mas fracassou nas bilheterias. Ninguém ousara fazer um filme desde então. Até agora.

Haviam vários problemas. Primeiro, iria custar muito caro. Segundo, como fazer anões e hobbits parecerem menores do que os outros? Terceiro, como levar dar vida a tão fantásticos personagens e lugares? Esses três problemas Peter Jackson resolveu de maneira brilhante. Filmando na Nova Zelândia, seu país natal, gastariam três vezes menos do que em Hollywood, portanto o orçamento para os três filmes era o mesmo do que apenas um. Filmando em perspectiva e com ótimos efeitos, conseguiu fazer atores como Ian Holm (Bilbo) e Elijah Wood (Frodo) parecerem duas vezes menor do que Ian McKellen (Gandalf). E contratando Alan Lee e John Howe, conceituados ilustradores das obras de Tolkien como designers de criação funcionou como mágica. Várias tomadas são idênticas a famosas ilustrações, como quando os hobbits se escondem do cavaleiro negro, ou Bag-end (Bolsão, incluindo a casa de Bilbo), Orthanc (a torre de Saruman), praticamente tudo. Apenas Rivendell e o Balrog é que são “novos”. Nesse aspecto, não havia como ser melhor ou dar errado. É realmente uma grande emoção ver a Terra-Média como se fosse de verdade, e provavelmente não há nada mais satisfatório no filme.

Porém existem outros problemas. O roteiro, por exemplo. Ninguém esperava que Jackson e sua equipe de roteiristas, Fran Walsh (Fome Animal) e Phillipa Boyens iriam reescrever boa parte do material, não apenas suprimir o que não fosse essencial. Não há sequer uma cena que se transcorra no mesmo local, com os mesmos personagens ou do mesmo modo no livro. Ainda bem que além de simplificar a história e facilitar para os novatos, também deixou as coisas bem mais frescas para aqueles que já leram, não sendo de modo algum uma adaptação linear e chata. Funciona muito bem como no começo, quando Gandalf chega ao Condado, construindo mesmos os personagens e passando as mesmas as informações da história só que de modo diferente. Muito bom. O problema é que eles não souberam se controlar. E pra piorar, tiveram que seguir os moldes de filmes de ação atuais. As cenas de ação são bastante estendidas, além da conta, e adicionados alguns sustos e situações pra não perder o ritmo. Um novo personagem foi criado, uma espécie de Darth Maul, que levou o nome de Lurtz. Uma criação trash a serviço do bem. Arwen (Liv Tyler), que mal aparece no livro, tem direito a um romance meloso com Aragorn (Viggo Mortensen), além de fazer papel de heroína, substituindo Glorfindel no Vau de Bruinen. De quebra, a atriz é Liv Tyler, que parece esconjurada de um clip do Aerosmith pra fazer de suas cenas o ponto baixo do filme.

Era de se esperar que um diretor de passado trash iria ter algumas idéias estranhas. Peter Jackson conseguiu avacalhar com várias cenas, como literalmente colocando feições do Gollum em Bilbo quando este age como ele a respeito do Anel, o que ficou exagerado. Mas não tão exagerado quanto a reação de Galadriel quando Frodo lhe oferece o anel. Que coisa horrorosa. Achei que essas vozes de Tinhoso/Linda Blair em Exorcista já tinham sido banidas do cinema na segunda metade dos anos 80. O confronto de Gandalf e Saruman (Christopher Lee) ficou deplorável. Eles magicamente empurram um ao outro, e Saruman atrai o cajado de Gandalf, lembrando dois bem conhecidos poderes da Força, disponíveis até agora apenas para Cavaleiros Jedi. Não dá pra acreditar que magos de tamanha estatura não tenham poderes melhores do que empurrões da Força.

Embora certos efeitos como os exércitos na introdução (Sauron simplesmente varrendo os soldados ficou igual o filme do Asterix) sejam passáveis, eles ainda não são perfeitos. Nem mesmo a velha tela azul é sem falhas e sua presença é gritante, como em Valfenda, quando Frodo diz a Sam que está “pronto pra ir pra casa”, ou quando ele levanta pra exibir o Anel no Conselho de Elrond. Embora em cenas mais escuras não há problema algum. A trilha sonora, de autoria de Howard Shore, é surpreendentemente boa. No filme, é perfeita, porém a versão em CD é extremamente editada e possui uma breguice chamada “In Dreams” no final do CD, antes da música da Enya, e acredite, é bem pior do que “May It Be”.

Jackson realmente se superou, trazendo algumas surpresas. Um Balrog aterrorizante (o design é de John Howe), tal como nenhum outro artista havia tentado mostrar, é finalmente páreo para o demônio descrevido por Tolkien. O personagem de Boromir (Sean Bean) é bem mais desenvolvido e tridimensional do que no livro, justificando até a criação de Lurtz para que fortalecesse a cena final do filme (que na verdade se dá no início de As Duas Torres), bem mais emocionante. O modo como Sauron seria mostrado também foi vítima de várias especulações, mas a opção por um imponente e maléfico “Lidless Eye” se mostrou bem adequada, amplificando a “presença” do Inimigo. Apesar de tudo isso, algumas transições são muito súbitas e repentinas, deixando tudo muito apressado, como se tudo ocorresse no máximo no decorrer de um mês. No livro são quase 18 anos! Bilbo deixa o Condado, e 17 anos se passam até que Gandalf o alerte Frodo a respeito do Anel. Talvez com as novas cenas que Peter Jackson irá adicionar no DVD, ficará melhor.

É um trabalho admirável o de Jackson e sua equipe. Realmente, acho muito difícil algum dia conseguirem fazer uma adaptação mais fiel ao livro, mas o problema mesmo são os preguiçosos que não leram, e pior ainda, nunca vão ler. “Ah, é isso aí então? Legal cara, mas e daí?” Nunca que Jackson iria conseguir atingir os patamares alcançados por Tolkien em seu método de contar histórias, mas ele sabia disso. Preferiu fazer do jeito dele. Desse modo, “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” não almeja ser uma versão definitiva de Senhor dos Anéis, e nunca poderia ser. Pelo menos ele traz isso bem claramente. Decepcionante e surpreendente. Uma outra adaptação erraria no que esta acerta, e vice-versa. Sendo assim, é um dos melhores filmes de aventura já feitos (e As Duas Torres será ainda melhor!), mas isso devido à qualidade do material original (algo que ninguém leva em conta ao comparar SDA a Star Wars), e ainda assim não chega nem perto da experiência transcendental que é o livro. Se você não leu e ficou fascinado, apenas imagine o que está perdendo.

Maio 2002

A Vingança do Ator, por maclaine

Yukinojo, esperando alguém fazer a piadinha (você sabe qual).

A necessidade de afirmação do cinema como arte independente e de qualidade é um dos temas mais caros e recorrentes da obra do diretor japonês Kon Ichikawa. Não deixa de ser irônico portanto que Yukinojo Henge (“A Vingança do Ator,” 1963), talvez seu mais brilhante tratado sobre o assunto, tenha sido um projeto imposto ao diretor, depois de sofrer com diversos fracassos de bilheteria. Trata-se de um remake de um filme realizado trinta anos antes.

Kon Ichikawa fez questão de chamar para o papel principal o mesmo ator da versão anterior, Kazuo Hasegawa, que com o filme comemorou seu tricentésimo papel na indústria.

Em Dez Mulheres Sombrias, Ichikawa demostra as vantagens da grande tela sobre a televisão, a novidade da época. Em A Vingança do Ator, trava-se uma batalha épica entre o cinema e o teatro. Nesse caso no entanto, a batalha mais parece um caso amoroso, com Ichikawa caminhando pelas duas artes como se buscasse desfrutar ao máximo de todas as suas qualidades.

O filme conta a história de Yukinojo (Kazuo Hasegawa), um onnagata, ou ator de papéis femininos. Durante uma apresentação teatral, depara-se na platéia com os três homens que, direta ou indiretamente, ocasionaram a morte de seus pais: três corruptos e ricos comerciantes de arroz. Por toda sua vida, Yukinojo buscou a vingança, e agora é chegada a hora de consegui-la. Mas o destino fez com que o mais influente dos comerciantes, Sansai Dobe (Ganjiro Nakamura), trouxesse ao teatro sua jovem e linda filha Namiji (Ayako Wakao), que termina apaixonando-se pelo onnagata.

Ao contrário do que seria costumeiramente esperado, a tradicional história de vingança é apenas o pano de fundo de uma disputa mais importante, que resulta no enaltecimento de duas artes distintas. Nas tomadas externas, por exemplo, visualiza-se apenas os atores em cena, iluminados de forma etérea, como em um palco. Quando é preciso mostrar paisagens, a fotografia dá lugar à pinturas disformes e saturadas que, como no teatro, favorecem um clima de introspecção.

Fora dos palcos, porém, Yukinojo deixa de agir como ator de Kabuki, e torna-se um personagem tão denso quanto o cinema pode oferecer. Seus pensamentos muitas vezes sobrepôem os diálogos e a ação na tela, um recurso possível de ser realizado apenas no cinema. Seu passado, e as razões de sua busca, são conhecidos a partir de flashbacks. Mesmo o clima teatral do cenário só é possível pelo uso perfeito que o diretor faz da tela widescreen, uma de suas especialidades. Ichikawa consegue por meio desses recursos extrapolar os limites de um mero teatro falado, e leva seu filme a uma nova escala de realismo.

O destino faz com que Yukinojo passe a ter uma relação de amizade com o maior ladrão da cidade, Yamitaro. Este sim, um personagem teatral em sua concepção básica. Yamitaro segue o ator em sua empreitada, devido a uma mistura de curiosidade e admiração. A todo instante, comenta sozinho as ações do amigo, e revela suas preocupações, em voz alta, como se buscasse se dirigir à platéia. O encontro entre o ator e o ladrão – que em diversos níveis, exemplificam o conservador e o subversivo, nem sempre nessa ordem – são filmados com tal emoção e precisão técnica que é realmente inacreditável que os dois personagens, como vim a descobrir, sejam interpretados pelo mesmo ator! Um verdadeiro toque de mestre de Kon Ichikawa, aproveitando mais uma vantagem do cinema.

Na trilha sonora também trava-se a mesma batalha, com uma mistura de instrumentos tradicionais japoneses e um jazz bem contemporâneo. O diretor soube aproveitar o melhor dos dois mundos, cinema e teatro, e ainda assim contar uma bela e clássica história. Trata-se de um verdadeiro tributo a capacidade de um diretor imprimir sua visão à obra, de passar idéias por meio de imagens. Um verdadeiro clássico.

Cidade dos Sonhos, por Joe

Justamente como Twin Peaks, Mulholland Drive nasceu para ser uma série de TV. A ABC não gostou do piloto (não entendeu patavinas), e aí Lynch, com ajuda do Le Canal+ francês conseguiu completá-lo como filme, tornando-o melhor do que a série jamais poderia ser. O resultado lhe deu o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 2001 (aquele com Liv Ullman e Terry Gilliam no júri), e o reconhecimento mundial de Mulholland Drive como seu melhor filme desde Veludo Azul (Blue Velvet), de 1986.

Uma limusine passa à noite por Mulholland Drive, em Los Angeles, e só se escuta a trilha surreal de Angelo Badalamenti. Uma mulher (Laura Harring) é a única sobrevivente de um terrível acidente que se sucede, e cambaleia em direção à cidade dos sonhos. Betty (Naomi Watts) é uma atriz ingênua vinda do Canadá para tentar a sua sorte em Hollywood, e a encontra escondida na casa de sua tia. A moça, que perdeu a memória, se dá o nome de Rita (ao ver um pôster de Gilda) e juntas elas tentam descobrir a sua identidade. Passando por uma esquisitice atrás da outra, sonhos que não parecem sonhos, personagens, situações e tomadas lynchianas típicas, Mulholland Drive vai constituindo aos poucos um aspecto de letargia, sempre num estado de meia-consciência, lembrando bastante A Estrada Perdida. Sua verdadeira força está em Lynch não se frustrar com a má recepção dada a seus filmes mais estranhos, como Estrada, e ao invés de ir em uma outra direção, cair direto de cabeça no âmago da questão.

Rita e Betty são como os dois lados de uma mesma moeda, e em duas cenas distintas e específicas elas se dão ao luxo de extrapolar fora dos limites de suas próprias personalidades, embora dentro de um contexto. Betty ensaia com Rita uma cena para uma audição de modo bastante previsível e comum, mas em frente aos produtores, faz totalmente diferente e com uma força estupenda. Rita, até certo ponto bastante retraída, passa usar uma peruca loira muito semelhante aos cabelos de Betty. É visível a confusão de identidade a partir daí, quando o filme dá uma volta em 180°. Ao contrário da picaretagem de criar altas expectativas para o desenrolar do mistério e complicar tudo, tudo tem alguma lógica, embora ela não venha diretamente à cabeça. Tudo faz sentido, mas não é um filme quebra-cabeça como Amnésia: a própria incerteza faz parte da proposta, e o não entendimento de todos os seus meandros. E vejam, se não é, justamente o que acontece com nossos próprios sonhos?
Mesmo sendo um trabalho retrógrado (depois do mais direto e simples História Real), é um dos melhores e mais acessíveis de David Lynch. Nos dias atuais, com filmes cada vez mais estúpidos e forçados ou ainda mesmo os bons realistas e autênticos, Mulholland Drive nos lembra o que pode ser feito utilizando-se a linguagem cinematográfica. Este é um filme que é preciso se deixar levar, tentar não só entender mas também se tornar cúmplice das incertezas e confusões, como nos envolvemos com nossos próprios sonhos.

A.I. – Inteligência Artificial, por maclaine

“Super-Toys Last All Summer Long” do escritor inglês Brian Aldiss narra a história de um casal que, em um futuro indeterminado, livra-se do filho robô depois que um sorteio do governo permite que concebam uma criança biológica. O diretor Stanley Kubrick decidiu que o conto poderia ser expandido e se tornar um ótimo filme, a exemplo do que já havia feito com “The Sentinel” (que não possuía HAL, missão a Júpiter, macacos, monolitos, etc.).

Após vinte anos de tentativas frustradas, o diretor deixou o projeto de lado por motivos técnicos e foi filmar De Olhos Bem Fechados. Depois aconteceu o que todos sabem. Kubrick morreu, deixou alguns papéis que Steven Spielberg deu uma bizolhada e resolveu filmar. A decepção é evidente para qualquer pessoa que espera um novo marco na ficção científica, mas de qualquer forma o resultado final não é insatisfatório. A.I. de Spielberg é uma boa recriação da fábula do boneco Pinóquio.

A primeira parte do filme é uma extensão do conto original. O casal Swinton tem um filho congelado com uma doença incurável. Para tentar alegrar a esposa Monica, o marido traz para casa David (Haley Joel Osment), o primeiro robô-criança programado para amar. A escolha de Osment não foi boa idéia, já que ele atua e age como se tivesse cinco anos, coisa que um garoto dessa idade conseguiria fazer de forma bem melhor. Quando Monica começa a se apegar ao novo garoto, é encontrada uma cura pra doença do filho, que volta a ser o centro das atenções da família. Após alguns incidentes entre os irmãos, Monica resolve se livrar de David, que é abandonado na floresta. Nesse momento, o filme se desprende da história que o inspirou, e passa a mostrar a busca de David pela Fada Azul, que, como Pinóquio, quer ganhar o amor da mãe transformando-se em um garoto de verdade. Vive então mil aventuras com os dois melhores atores do filme, seu ursinho de pelúcia Teddy e o andróide Gigolo Joe (Jude Law).

O futuro imaginado em A.I. é uma forma exagerada do regime capitalista em que vivemos. Os países de terceiro mundo faliram e seus habitantes morreram de fome. Os Estados Unidos estão ainda mais ricos e com rígido controle populacional e de energia. Inteligências artificiais são usadas para realizar cada vez mais tarefas, e vão aos poucos substituindo o homem. Na segunda parte do filme, o ambiente classe média da casa dos Swinton é deixado de lado para explorarmos três locações desse país do futuro. A “Flesh Fair” e “Rouge City” são cenários visualmente impressionantes, embora pouco originais. Em um filme que busca o realismo técnico, A.I. sofre pela teimosia (comum nos filmes da década passada, como Gattaca, O Décimo-Terceiro Andar, entre outros) de imitar Brazil ao buscar representações nostálgicas para ambientes futuros. Ao contrário no entanto da obra-prima de Terry Gilliam, nos filmes atuais o artíficio fica simplesmente inverossímil.

O grande triunfo de A.I. está nos efeitos especiais. O parabéns vai diretamente para Dennis Muren e sua equipe da Industrial Light & Magic, que trabalharam muito bem durante a metade do filme que seus serviços foram necessários. Alguns andróides são realmente espetaculares, e as duas sequências de vôo sobre Manhattan (primeiro com a cidade submersa e depois durante a era glacial) são sem dúvida as melhores coisas do filme.

Infelizmente o mesmo não pode ser dito da música de A.I. Após um surto criativo em 1998 (O Mundo Perdido) e 1999 (Episódio I: A Ameaça Fantasma), John Williams voltou à mediocridade que caracterizou seu trabalho na década de 90. As músicas de A.I. parecem uma coletânea de trilhas de outros filmes, como 2001 e E.T. Algumas sequências originais não são ruins mas também nada brilhantes. O tema de amor da Monica Swinton é especialmente insosso, e quem comprar a trilha sonora ainda vai ter de aguentar duas versões cantadas no estilo Disney (felizmente expurgadas da versão final do filme).

É impossível criticar o filme sem tocar em dois pontos fundamentais de seu final. Se você prefere primeiro assisti-lo, é bom parar por aqui. Vou partir de um comentário que Brian Aldiss fez em 1997 para um artigo sobre A.I. na revista Wired: “Stanley [Kubrick] embraces android technology, and thinks it might eventually take over – and be an improvement over the human race.” Esta visão de Kubrick quase permaneceu no final de A.I., a partir de uma profecia proferida por Gigolo Joe, e presenciada por David milhares de anos após falhar em sua busca. Um final audacioso e poderoso, e por isso mesmo diferente de tudo aquilo que já se viu em algum filme do Spielberg. Obviamente, ele teve de alterá-lo. Na nova Terra, dominada pelos robôs, existe um único objetivo: recriar os seres biológicos. Como diz um dos autômatos: Certainly human beings must be the key to the meaning of existence. Isso não faz o menor sentido, pois é uma tentativa besta de recolocar o homem no centro do Universo. É uma glorificação exagerada de um espírito de bondade humana, palhaçada muito comum de ser vista apenas nos filmes de Spielberg.

O que sobra então? A historinha do Pinóquio, com direito ao final feliz. E o mais irônico: final feliz sustentado apenas pelo artíficio mais comum (e engraçado) dos filmes de Spielberg. Um acontecimento TÃO improvável, TÃO conveniente, que somente seria possível em um conto de fadas. Diz o Teddy: Do you remember [dois mil anos atrás] when you cut some of Mommy’s hair? AND YOU DROPPED HER HAIR?  Então ele abre a mão e mostra o cacho. Depois disso, não tenho nada a acrescentar.

Outubro 2002

Sinais, por Joe

Manoj Nelliyattu Shyamalan (ou como é conhecido por essas bandas, M. Night Shyamalan) conseguiu, com filmes como O Sexto Sentido e Corpo Fechado, uma enorme fama mundial, sendo taxado até “novo Spielberg” e “novo Hitchcock”. Em O Sexto Sentido, Manoj arrasta o público por seu roteiro contraditório por uma hora e meia, pra revelar um final surpresa que (aparentemente) torna o filme “genial”. Com Closed Body ele foi um pouco mais fundo, desenvolvendo lógicas irrefutáveis (“se eu quebro fácil, deve ter alguém inquebrável”) e mantendo o final-surpresa. Fica óbvio que para escrever seus roteiros, Manoj passa semanas pensando num final inesperado e rapidamente escreve todo o resto de trás pra frente, tomando bastante cuidado pra tudo encaixar direitinho no momento da revelação.

Apesar da má recepção (devida) dada à Closed Body, Manoj não se deixou desencorajar e bolou Signs. Desta vez abordando mais um tema sinistro e misterioso: desenhos nas plantações, supostamente feitos por alienígenas. Eu pensei que todo mundo com um mínimo de inteligência sabia que isso é coisa de fazendeiros desocupados e seus tratores. Manoj prefere entrar em território já coberto soberbamente por Steven Spielberg em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, inclusive chegando a citar músicas deste e Psicose. Talvez por isso, alguns poderiam até chamar Signs de Psicose de Terceiro Grau. Todos os sustos esperados numa hipotética fusão desses dois filmes estão presentes. Exceto talvez pela decisão de Manoj de realmente mostrar os toscos ETs em algumas cenas.

Pra piorar, todos os clichês imagináveis nessas situações são explorados. Desde o garoto que possui asma e perde a sua bombinha; barulhos, sombras e lanternas num milharal; e o fatídico confronto final num porão cercado de alienígenas. Aparentemente uma invasão em massa é tão ineficaz a ponto de meras portas de despensa conseguirem detê-los. A desculpa é que se os humanos utilizassem armas nucleares, acabariam por destruir o planeta, e os ETs só viriam para cá para explorar nossos recursos naturais. Bizarro que a maior parte do planeta é feita do material mais nocivo para eles. Vai entender. Até o pessoal da NASA sabe melhor que isso.

Desenvolvendo suas lógicas inquebrantáveis de Closed Body, em Signs, Graham Hess (Mel Gibson, sabe, aquele cara que faz a voz do galo em Fuga das Galinhas) é um ex-pastor que recentemente perdeu a fé devido à morte cruel de sua esposa (atropelada pelo personagem de Manoj). A fé é o tema principal do filme, e ela é super-simplificada separando as pessoas em dois tipos (como diz Hess numa cena-chave), aquelas que olham para o desconhecido e sentem medo e aquelas que olham para o desconhecido e sabem que não estão sozinhas, que alguém (Deus) está lá para ajudá-las. Típico de Manoj, que desde seu filme com Rosie O’Donnell (Olhos Abertos) vêm tentando dar aulas de teologia se utilizando de lógicas de crianças de 10 anos.

Alguns até elogiaram as performances do grupo de atores. Mas Mel Gibson reprisa seu papel de homem afetado, e que realmente não demonstra emoção alguma durante a maior parte do filme. E além do mais, Mel Gibson como um ex-pastor que perdeu a fé? Mel Gibson é Mad Max, William Wallace, o galo da Fuga das Galinhas. Não merece um papel bobo desses. Joaquin Phoenix mostra novamente suas expressões de vassoura, coisa que aprendeu muito bem em Gladiador. Shyamalan tem uma participação, mas coitado, ele parece ainda mais fora de lugar do que sua pequena ponta em Closed Body. Claro que só dele aparecer em seus filmes não o eleva para a categoria de “novo Hitchcock”.

No final o que prevalece sempre é a fé, o amor e a união familiar. Tanto Manoj quanto os roteiristas de Hairy Porter sabem muito bem disso. O maior problema nem é esse, mas do jeito tosco em que o final surpresa é revelado. O que poderia ser uma “Guerra dos Mundos disfarçada”, acaba por ser simplesmente estúpido. Tem a ver com algumas coisas na vida serem na verdade sinais, e que devemos prestar mais atenção a eles. Quem devia ter prestado atenção deveriam ter sido nós mesmos, enxergando já desde o começo sinais que esse filme seria um porre.

Estrada Para Perdição, por Joe

Sam Mendes é certamente um fenômeno da indústria cinematográfica. Não tendo dirigindo absolutamente nenhum filme até então, atraiu a atenção de Steven Spielberg e da Dreamworks, que financiou seu filme de estréia, Beleza Americana, papando assim dezenas de Oscars. Ninguém negaria um projeto milionário como Estrada Para A Perdição, com Tom Hanks, Paul Newman e Jude Law, sob a tutela de um diretor tão badalado.

Ambientado na Chicago dos anos 30 (bem debaixo do nariz de Al Capone), Michael Sullivan (Tom Hanks) é o braço direito de John Rooney (Paul Newman), chefão da máfia local. Obviamente, Sullivan esconde sua ocupação de seus dois filhos pequenos. Certa noite, Michael (Tyler Hoechlin) se esconde dentro do carro do pai e o observa realizar seu trabalho. Um homem é morto, e o estrago está feito. Temendo que o garoto acabe revelando futricas e mexericos, a família de Sullivan é executada, porém pai e filho sobrevivem. Juntos eles buscam por vingança, enquanto um atirador bem maluco, Maguire (Jude Law) está na sua cola.

Se os dilemas morais de um pai de família que não quer que seu filho acabe seguindo seus passos como atirador da máfia já é assunto batido (sim), alguns aspectos do filme se beneficiam do fato de ser uma adaptação da graphic novel homônima de Max Allan Collins e Richard Piers Rayner. Se por um lado o argumento é ambicioso e obtuso demais (coisa comum em graphic novels), o aspecto visual é soberbo, mesmo que a maioria das imagens evocadas sejam apenas ilustrações insubstanciais e repleta de excessos. A chegada em Chicago, por exemplo, com cenários e figurantes estapafúrdios, deve ter gasto pelo menos metade do orçamento em meros três minutos de filme.

Sam Mendes não é o que pode se chamar exatamente de um cinesta de talento. Ele é um diretor que segue as instruções de como fazer um filme à risca. Utiliza todos os truques e técnicas conhecidas, valendo-se do meio original (graphic novel) para conferir não só uma abordagem meio destacada às cenas de ação, mas também um desenvolvimento emocional quase nulo dos personagens principais. É de se esperar que numa HQ a ação seja bem representada, e em algumas cenas se tem a impressão que toda a composição, movimento e fluidez das imagens estariam bem mais à vontade impressas numa folha de papel. Mendes sabe fazer um filme, mas é incapaz de criar. A definição de um diretor picareta.

Se é culpa da graphic novel ou da obtusão de Mendes ou do roteiro, não importa: o filme tem falhas por todos os lados. Hanks nunca consegue alcançar os níveis exigidos pelo personagem de Sullivan. Tirando a cara de bom moço e sua simpatia, não sobra muita coisa pra se trabalhar. O garoto de 12 anos, Michael, tem toda sua vida revirada em pouquíssimo tempo: descobre que seu pai é na verdade “do mal”, sua mãe e irmão foram assassinados a sangue-frio e começa uma vida de crimes com seu pai. Porém o máximo de emoção que ele esboça é reclamar de um pesadelo à noite. Até a presença de Paul Newman é desperdiçada, preferindo dar mais espaço ao caricatural personagem de Jude Law. Tudo no roteiro acontece simplesmente porque TEM que acontecer. Não se vê nenhum personagem realmente tomando decisões como se eles tivessem essa capacidade. E a cena final da cozinha se apóia num clichê tão ridículo e banal para amarrar as pontas que é injustificável.

Em Beleza Americana, por pior que o filme fosse, havia pelo menos alguma coisa a ser dita, um ponto a ser levantado. Estrada Para Perdição, porém, parece apenas um veículo ultra ambicioso para “o diretor de Beleza Americana”, Tom Hanks “em papel diferente” e Paul Newman “boa performance antes de ficar gagá”. É tudo muito excessivo, a ponto de atingir a artificialidade. O confronto final de Hanks com Newman, por exemplo, é quase tão pretensioso quanto os momentos mais auto-edificantes de Brian DePalma. Existem cineastas notáveis que conseguem fazer mais com menos [inserir exemplos]. Mendes pertence à categoria oposta, a de cineastas ordinários que conseguem fazer menos com mais.

Dezembro 2002

O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, por Joe

Há um ano atrás, A Sociedade do Anel surpreendeu o mundo inteiro com a adaptação mais do que fantástica de Peter Jackson para o clássico de J.R.R. Tolkien. Apesar de alguns exageros desnecessários, como a Galadriel voz de Exorcista; a superexposição de um personagem secundaríssimo, Arwen; Bilbo com feições de Gollum, etc. o filme foi um sucesso estrondoso (como se alguém fosse realmente ligar pra esses detalhes), sendo fiel às idéias essenciais do livro. Com As Duas Torres, Peter Jackson não consegue novamente se conter e parte para mais exageros desnecessários. O problema é que desta vez as pisadas na bola são mais profundas, comprometendo o filme de várias maneiras.

A Sociedade do Anel termina com o desemembramento da Sociedade e a morte de Boromir. No livro, a narrativa de As Duas Torres é separada: o livro um trata de Merry e Pippin, levados pelos uruk-hais para Saruman, e a busca de Aragorn, Legolas e Gimli por eles. O livro dois é dedicado apenas à jornada de Frodo e Sam até Mordor. No filme, os três núcleos são intercalados de forma bastante satisfatória. Só de vez em quando é que se tem a impressão que uma cena interessante fora reduzida ou cortada.

Os puristas irão concordar que enquanto haviam algumas diferenças no primeiro filme, quase nada em As Duas Torres ocorre do mesmo jeito que no livro. Os elfos chegam para ajudar no Abismo de Helm, Faramir fica quase tão louco quanto seu irmão Boromir a respeito do Anel e Arwen faz mais aparições irritantes. Porém apesar de todos os desvios, alguns totalmente desnecessários e estúpidos, alguns resultam em cenas excelentes. Por exemplo, a cidade em ruínas Osgiliath e o Nazgûl no final; o despertar do rei Théoden, literalmente dominado por Saruman; Barbárvore e os Ents chegando em Isengard; o ataque dos Wargs e várias alterações à batalha do Abismo de Helm. Mas até aonde deve-se sacrificar um roteiro coeso, interessante e fiel às idéias de Tolkien por algumas cenas excelentes? O personagem Faramir é totalmente diferente no filme. Perde-se certa profundidade, mas é uma desculpa para Frodo e Sam passearem por Osgiliath e encontrarem um Nazgûl.

O que compromete As Duas Torres é o seu miolo (depois do despertar de Théoden). No livro, é a parte mais enfadonha de todas, introduzindo personagens desinteressantes e unidimensionais como o rei Théoden, Éowyn e Éomer. No filme, em vez de torná-la interessante ou mesmo reduzir a exposição, Jackson a estende além da conta, com toda uma ladainha do povo de Rohan estar à beira da destruição (com direito a tomadas de mulheres e crianças chorando). Obviamente ele aproveita para dedicar uns bons minutos de filme para mostrar seus dois filhinhos em cenas de importância nula e impacto emocional zero como refugiados de um vilarejo. Sem falar no seu fetiche em tentar fazer o público acreditar que alguém morreu: fez com Frodo três vezes no primeiro filme, e agora a vítima é Aragorn. Todo mundo sabe que ele não vai morrer, mas ainda assim ele insiste. Sendo que Merry e Pippin passam a maior parte do tempo nos ombros de Barbárvore, Jackson escolhe Gimli para ser o alívio cômico do filme. Nenhuma oportunidade é desperdiçada para gozar da cara do anão (e a única piada que não é forçada, a do parapeito, só acontece no final). Desta forma, a curiosa e sincera amizade entre Legolas e Gimli não se desenvolve como no livro, infelizmente.

O maior problema de A Sociedade do Anel retorna triplicado: Arwen, que nem deveria aparecer em As Duas Torres, fica se lamentando e recebendo sermões do pai carente (Elrond) numa cena patética em que ele praticamente diz: “Você não me ama, filha?” e ela responde: “Sim, papai, claro que te amo!”. Eu achava que os elfos estariam acima desses dramas de novela. Pelo menos uns quinze minutos do filme são dedicados a essa besteira, mais uma recapitulação narrada por Galadriel e sonhos eróticos de Aragorn. Tudo isso vai embolando e reduzindo drasticamente a agilidade daquela porção do filme, demorando pra recobrar o passo. Quando retorna, entretanto, é fantástico.

O Abismo de Helm não passa de uma batalha no meio do livro, mas Jackson e cia. a elevaram para o absoluto clímax do filme (em que até o seu buildup chega a ser tedioso), uma sequência enorme e complicadíssima que aparentemente demorou meses para ser filmada. Em algumas tomadas, tudo que se vê na tela são efeitos especiais, com dezenas de milhares de soldados, resultando numa cena que sempre será lembrada não só como um dos pontos altos da trilogia, mas também de todos os filmes do gênero aventura/fantasia. E olha que é apenas um gostinho da grande batalha que transcorre em O Retorno do Rei.

Velho idiota! Fique quieto enquanto eu arquiteto meus planos para agarrar sua sobrinha gatinha.
Felizmente, Peter Jackson acerta o que seria mais difícil numa adaptação de Senhor dos Anéis para as telas, que é dar à criatura Gollum autenticidade. Utilizando o que há de mais novo em computação gráfica e os talentos do britânico Andy Serkis, Gollum é tão verossímil que é fácil dá-lo como real. A dualidade Gollum/Sméagol é tratada de forma brilhante, como pode ser visto num monólogo/diálogo consigo mesmo. Seus movimentos e expressões são tão perfeitos que uma cena que parece patética no papel funciona milagres na prática. O mesmo acontece com Barbárvore e os Ents, reforçando a idéia de que a verdadeira estrela de As Duas Torres são os efeitos especiais.

Infelizmente o filme acaba bem antes do livro (mais ou menos no mesmo ponto que o desenho animado de Ralph Bakshi), o que pode enfurecer os fãs árduos de Tolkien, por não ter nada de Shelob, Cirith Ungol e nem mesmo o capítulo conhecido como “A Voz de Saruman”. Porém essa decisão pode ser benéfica, visto que sobra mais tempo para Frodo e Sam no terceiro filme (que no livro é curtinho). Além do mais, aparentemente Peter Jackson quer um Retorno do Rei de 3h30m, uma vez que é o seu preferido, “quase bíblico”. É bom que seja o melhor…

2004

A Vila, por Joe

Com o sucesso de O Sexto Sentido, Manoj Nelliyattu Shyamalan (ou M. Night) descobriu que milagres um final surpresa pode fazer. Como é o caso de seus filmes posteriores, Corpo Fechado e Sinais, o final surpresa deixava o público boquiaberto e possibilitando novas interpretações do filme. O problema é que sem o impacto final, os filmes de Shyamalan beiravam o patético com seus sustos forçados e diálogos barangos sobre religião, amor e a natureza humana. E cada vez mais o final surpresa deixava de ser apenas um truque espertinho e passava a representar a premissa inteira do filme, o que leva algumas pessoas a acreditar que Shyamalan de fato escreve seus filmes de trás pra frente.

Uma aldeia na região de New England é isolada por um bosque habitado por criaturas estranhas. O povoado teme tais criaturas a ponto de evitar o que eles chamam de “a cor ruim”: não pode nem nascer uma flor vermelha que ele deve ser enterrada o mais rápido possível, com o risco de atrai-las. A única pessoa que não teme tais criaturas é o idiota da vila, Noah (Adrien Brody). Porém certo dia ele esfaqueia o panaca da vila, Lucius (Joaquin Phoenix em sua performance mais vassourática). Sua namoradinha Ivy (Bryce Dallas Howard, filha de Ron Howard) resolve então atravessar o bosque (mesmo sendo cega) infestado das criaturas maléficas pra conseguir remédios pra salvá-lo.

As criaturas são chamadas de “Those-We-Don’t-Speak-Of”, porém os dirigentes da aldeia passam o dia inteiro em uma reunião permanente sempre discutindo-os. Existe um galpão “Which-Is-Not-To-Be-Used”, vermelho é “The-Bad-Color”, coisas que cheiram ao puritanismo exacerbado da caça às bruxas. É claro desde o começo que os dirigentes sabem de um segredo, que eles mantêm numa enorme caixa preta em suas casas, à vista de todos. Mesmo com um peso opressor do terror das criaturas – completo com aparições públicas e animais esfolados espalhados pela cidade – o amor floresce. Ivy é uma menina cega, mas que enxerga as pessoas como cores e de vez em quando gosta de sair correndo pelo prado (será que Shyamalan sabe que cego na verdade significa NÃO ENXERGAR?). Lucius não é idiota da aldeia per se, mas poderia muito bem ser, pois em certas cenas suas expressões de vassoura são mais retardadas do que as de Noah. O romance entre Ivy e Lucius não convence justamente por que é impossível saber se uma vassoura está chorando ou se está sorrindo. Preste atenção também na mania de Manoj de fazer o personagem dizer o nome completo da pessoa com quem está falando — mas só se o assunto for muito importante.

Em Sinais, a primeira aparição dos ETs (num noticiário) mostra um sujeito numa fantasia de ET ridícula que muita gente achou que ele era falso mesmo. Pior que não. Mas em A Vila Shyamalan decidiu a sua incapacidade de empregar efeitos especiais convincentes em seu favor. Quando as criaturas aparecem (estranhamente parecem o lobo mau fantasiado de chapeuzinho vermelho) elas podem ser tão falsas quanto os ETs de Sinais ou “reais”. É assim que a primeira surpresa do filme é revelada. Sim, você leu certo: desta vez Shyamalan tem DUAS surpresas.

Uma é que os monstros são na verdade os dirigentes da aldeia que não querem que ninguém saia de lá. O por quê é a outra surpresa, tão previsível que pode ser adivinhada nos primeiros minutos de filme. “The Village” é familiar para os fãs da série inglesa The Prisoner. É exatamente a mesma coisa: os dirigentes são pessoas que resolveram criar uma sociedade isolada do resto do mundo numa reserva florestal, cansadas da violência do mundo atual.

A idéia não é ruim – um grupo de pessoas que tenta escapar da civilização criando uma aldeia no meio do mato e instilando medo em seus habitantes para que eles não descubram a verdade. O filme poderia ser desenvolvido como uma crítica a essa sociedade insular e o medo como medida restritiva para que a mentira seja mantida. Em consequência, a sociedade criada é privada de conhecimento, liberdade e paz — o que não é tão distante da realidade quanto parece. Os dirigentes, querendo fugir da violência urbana (e o medo gerado por ela) acabam passando a maior parte do seu tempo preocupados em criar o mesmo tipo de ameaça para seus filhos. Chegam até a interromper um grande casamento pra dar uns sustos.

Shyamalan, com sua mente estreita ligada em modo “suspense-com-final-surpresa” não consegue fazer diferente: os tópicos mais interessantes da situação são evitados em troca de sustos bobos e pueris (nem isso ele conseguiu acertar dessa vez). E A Vila nem funciona como cautionary tale, pois Shyamalan é apologético quanto à escolha dos dirigentes. Em sua aparição-surpresa (querendo ser o Hitchcock), Shyamalan está lendo jornal numa guarita na fronteira da reserva. No jornal, nada menos do que quatro manchetes sobre mortes violentas e na trilha sonora um rádio dando informações semelhantes. Além disso, a morte de Noah na floresta serve como o aviso final das criaturas, que até então não haviam machucado nenhum ser humano. [As ações deste personagem na segunda metade do filme são totalmente inexplicáveis, exceto pelo fato que ele é mentalmente deficiente, e que retardados fazem coisas que ninguém entende mesmo.]

Em entrevistas, Shyamalan se mostrou parcial à visão do mundo do final do século XIX em relação ao mundo contemporâneo, onde somos, em suas palavras, “impedidos de exprimir nossos sentimentos mais profundos e nos separa da dimensão emocional da vida”. Também considera A Vila como “positivo”, graças ao “amor absoluto, muito puro, que vem das crianças e que tem a capacidade de salvar a vila”. Se para Shyamalan essa força vem da pureza e inocência das crianças, então ele suporta a idéia de uma vila, em que cada geração se torna mais e mais distante do mundo real, porém capaz de “amor absoluto”.

Written by Joe

julho 21, 2007 às 3:01 pm

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